Redução de jornada: empresária coage funcionárias em Itabaiana


Uma empresária de Itabaiana reuniu as funcionárias, anunciou que elas teriam um dia a mais de folga com o fim da escala 6x1 e, na mesma conversa, disse que o salário de todo mundo ia cair pro mínimo. Gravou tudo e postou.
A empresária é Flávia Almeida, mentora e CEO de uma joalheria lá na nossa Itabaiana. O vídeo já foi apagado, mas ainda circula nas redes, e vale olhar com calma, porque ele diz muito sobre o debate que o Brasil tá fazendo agora.
O começo é de cortar o coração. Ela anuncia: "Agora vocês vão ter um dia a mais de folga". As meninas sorriem, e ela mesma comenta: "Olha o sorriso delas". Pergunta quem ganha menos de três mil reais, as mãos sobem, e aí vem a virada: "Com isso, vamos ter que reduzir o salário de vocês. Vocês vão receber o salário mínimo." O sorriso some na hora.
Só que tem um detalhe que a CEO esqueceu de contar pra equipe. A Constituição já proíbe redução de salário, tá lá no artigo 7º, inciso VI. E a PEC do fim da 6x1, aprovada pelo Senado na quarta-feira passada (14), proíbe expressamente qualquer corte salarial por causa da jornada menor. Ou seja, o cenário que ela apresentou pras funcionárias não existe na lei. Foi inventado pra botar medo.
Daí pra frente, o vídeo vira uma sequência de recados. "Quem vai continuar trabalhando é aquele funcionário que veste a camisa da empresa", diz ela, em contraste com aquele que tá "só pelo salário mínimo, porque aquele não entrega nada". Traduzindo: quem quer descansar não veste a camisa.
Depois ela passa perguntando a carga horária de cada um, na frente da câmera e dos colegas. Uma entra às oito, sai às quatro e ainda trabalha no sábado até uma da tarde. Quando pergunta a Jorge se, com o que ele ganha, dá pra realizar o sonho dele, ele responde seco: "Não". E a resposta da patroa? "A conta não vai fechar." O trabalhador diz que não dá pra viver, e a conta que preocupa é a da empresa. A dele ninguém fez.
No final, vem a proposta: continuar tudo como está, mesma escala, e o salário "mantém ou aumenta" se elas forem entregando. Ela pergunta se a proposta é interessante. A resposta é um "sim" que de sim não tem nada. É o sim de quem entendeu que não tinha outra resposta pra dar, com a chefe olhando e o celular gravando.
E é aqui que esse vídeo encontra o debate nacional. Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, passou meses defendendo uma alternativa ao fim da 6x1 baseada na negociação direta entre patrão e empregado, a tal da "PEC da liberdade". "Eu queria que tivesse liberdade para o trabalhador montar seu horário de trabalho", disse ele no dia 13, quando finalmente anunciou voto a favor da PEC, sem largar o discurso da negociação.
Pois bem, o vídeo de Itabaiana mostra como é essa negociação na vida real. Liberdade ali eu não vi nenhuma. Vi uma patroa decidindo e as funcionárias tendo que concordar, uma a uma, em público. Conversa entre quem paga o salário e quem depende dele pra botar comida em casa nunca é conversa entre iguais. É por isso que existe lei de jornada: pra que o direito ao descanso não dependa da boa vontade de cada patrão.
Se alguém grava e posta uma coisa dessa achando normal, imagine o que acontece nos bastidores das empresas desse país, onde não tem câmera ligada.
Minha solidariedade a essas trabalhadoras. E fica o recado pra CEO: se a empresa não tem condição de pagar um salário digno com uma jornada digna, talvez seja hora de deixar de ser mentora e procurar mentoria.




Comentários