Tanto faz quem ganhar? O preço da comida diz que não


Tem muita gente dizendo que, se Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT) ganhar, a vida não muda. Muda, sim. E muda logo onde dói mais: no prato.
Comida cara não é só culpa do mercado, da chuva ou do dólar. Decisão de governo também chega na mesa. E, quando a gente olha pra três políticas que mexem direto com o preço do alimento, a diferença entre um governo e outro fica clara.
A comida do pequeno agricultor
Existe um programa em que o governo compra a comida direto do pequeno agricultor, aquele que planta o feijão, a macaxeira e as verduras que chegam na feira. Funciona dos dois lados: o agricultor tem pra quem vender, com preço garantido, e a comida vai pra escola, pro hospital e pra quem tá passando fome. Com o agricultor plantando e vendendo, tem mais comida circulando, e isso ajuda a segurar o preço.
Em 2022, com o Brasil batendo recorde de fome, o governo Bolsonaro colocou só R$ 2 milhões nesse programa. Isso mesmo, 2 milhões, num país desse tamanho! É dinheiro que não dá pra abastecer uma cidade média. O governo Lula colocou R$ 900 milhões.
A despensa do país
Os estoques públicos funcionam como a despensa de casa, só que do Brasil inteiro. O governo compra arroz, feijão e milho quando o preço está baixo e solta no mercado quando ele dispara. É assim que se evita que um ano ruim de safra vire um ano de fome.
No governo Bolsonaro, os estoques públicos de arroz, feijão e milho foram zerados e 27 armazéns da Conab fecharam as portas. A lógica era que o mercado resolveria sozinho. Não resolveu. Quando o preço subiu, o governo não tinha o que soltar. O governo Lula destinou R$ 500 milhões pra voltar a encher essa despensa.
A nossa Fafen
Aqui em Sergipe, a história tem nome e endereço: a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, em Laranjeiras. A decisão de parar as fábricas de fertilizantes da Petrobras começou a ser desenhada ainda no governo Temer, mas foi no governo Bolsonaro que ela saiu do papel. Em 2019, a Fafen entrou em hibernação e, no fim daquele ano, foi arrendada pra iniciativa privada. A empresa que arrendou deixou de produzir em 2023. Resultado: uma fábrica inteira parada, trabalhador sem emprego e Laranjeiras perdendo arrecadação.
Com Lula, a Petrobras voltou a gerir a fábrica. A Fafen voltou a produzir e gerou 530 empregos. E não foi só aqui. A fábrica gêmea da Bahia, em Camaçari, passou pelo mesmo caminho e foi retomada em janeiro deste ano. A do Paraná, em Araucária, foi fechada em 2020, com centenas de trabalhadores demitidos, e reativada em abril, com capacidade pra produzir 8% da ureia do país. Juntas, as três já respondem por cerca de 20% da ureia que o Brasil usa. Com a fábrica de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, que teve a retomada das obras aprovada e deve operar em 2029, a projeção é chegar a 35%.
Por que isso importa pra quem não planta nada? Porque o Brasil é um dos maiores produtores de alimento do mundo e importa a maior parte do fertilizante que usa. Quando o preço lá fora explode, o custo de plantar sobe, e quem paga a conta é você, no supermercado. Produzir aqui não faz milagre no preço, mas diminui essa dependência e deixa o país menos exposto.
“Mas a comida continua cara, André”
Continua, e eu não vou fingir que não. Só que destruir uma política pública demora pouco. Reconstruir leva tempo e muito esforço. Armazém fechado não reabre da noite pro dia, estoque zerado não se enche numa safra só e fábrica parada há anos não volta a funcionar com um decreto.
E o que o dia 25 tem a ver com isso?
Tudo. O plano de governo de Flávio se apresenta como continuidade do governo do pai, citado como referência do começo ao fim. E entre as propostas está a retomada do programa nacional de privatizações. Foi esse mesmo caminho que tirou a Fafen da Petrobras e que, em 2021, vendeu Carmópolis, o maior campo de petróleo em terra do Brasil, que produzia aqui em Sergipe desde 1963.
Ou seja, o modelo que zerou a despensa, cortou o dinheiro do pequeno agricultor e parou a Fafen é o modelo que ele promete trazer de volta. Espero que, no dia 25, a gente aqui de Sergipe lembre de quem parou a fábrica e de quem fez ela voltar a funcionar.




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