Tiro na UFS criança armada não pode ser normalizado


Um homem apontado pelos estudantes como apoiador de Flávio Bolsonaro (PL) sacou uma arma e atirou para o alto durante um ato pró-Lula em frente à Universidade Federal de Sergipe, na noite da última quinta-feira, 8 de outubro. O ato tinha sido convocado pelo DCE da UFS para debater políticas estudantis, o cenário eleitoral e a importância do voto da juventude. Ninguém foi atingido, mas a correria tomou conta da calçada.
O que mais me impressiona é que esse homem se sentiu à vontade para fazer isso em meio a uma multidão e sendo filmado.
A Secretaria de Segurança Pública identificou o autor como o 1º sargento da PM Manoel Messias dos Santos, que foi afastado das atividades de rua e teve a arma recolhida. A Polícia Civil abriu inquérito, e a Corregedoria da PM instaurou procedimento administrativo.
E não era a primeira vez que a arma desse homem preocupava a Justiça. Segundo documentos obtidos pela CartaCapital, o sargento teve a posse e o porte de armas suspensos em 2024, depois que a companheira relatou ameaças de morte. Em um dos episódios descritos no processo, ele teria dito que mataria a mulher e se movimentado para pegar a arma que levava na cintura.
As medidas protetivas o obrigaram a sair de casa e o proibiram de se aproximar dela. Ele entregou duas pistolas, sete carregadores e quase 70 munições ao comando da sua companhia. O juiz do caso escreveu que o risco à integridade física da vítima era concreto e notório. As medidas foram revogadas em novembro de 2025.
Menos de um ano depois, o mesmo homem estava armado em frente a uma universidade, atirando durante um ato político.
O caso de Sergipe não está sozinho. Nessa eleição, numa comemoração de apoiadores de Flávio em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, uma criança de 9 anos apareceu segurando uma arma, celebrada pela multidão. A mãe nem sabia que o filho estava lá. Quando reclamou, o pai respondeu que da próxima vez iria comprar uma boneca. Segundo ele, era de brinquedo. A conselheira tutelar lembrou que, mesmo assim, é proibido.
Essa visão de sociedade não é normal, não é segura, e é central para o bolsonarismo. No governo Bolsonaro, o número de CACs saiu de 117 mil para 673 mil. O número de lojas de armas aumentou 70%, e o de clubes de tiro, 90%. E o TCU mostrou que 5.200 condenados pela Justiça conseguiram registro de CAC entre 2019 e 2022.
E quem paga o preço mais alto costuma estar dentro de casa. Das mais de 400 mil novas armas registradas de 2019 a março de 2022, 96% estavam em nome de homens. Para 9 em cada 10 mulheres ouvidas pelo Instituto Patrícia Galvão, ter uma arma em casa desencoraja a denúncia de violência. E ela pode tornar letal o desfecho de uma discussão. O histórico do sargento da UFS mostra que isso não é teoria.
É assustador que casos como esses retomem o nosso dia a dia. A política não deveria ser ambiente de violência. Na verdade, na minha concepção política, a violência é justamente a negação da política. Onde entra a arma, sai o argumento.
O Brasil precisa superar isso. Não podemos aceitar grupos políticos incentivando o uso de armas e o uso do medo como mecanismo de dominação política. Espero que a investigação seja rápida e que a juventude sergipana continue ocupando as ruas sem medo.
Pense bem antes de votar.




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