Do "Xote dos Cabeludos” aos cachês milionários: a desvalorização do forró perante o avanço “agro-sertanejo” nos festejos juninos
- Bruno Vieira

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A música “Xote dos Cabeludos” (1967), cantada por Luiz Gonzaga e escrita por Zé Clementino, é reconhecida como uma crítica direta a Roberto Carlos e à Jovem Guarda, movimento que na época dominava o mercado cenográfico brasileiro. De acordo com relatos e histórias dos bastidores da música, Roberto desqualificava a estética e o estilo musical (de forte representatividade nordestina) do Rei do Baião. Considerava-os ultrapassados e antiquados. Gonzaga, por sua vez, percebia que os artistas do Sudeste impunham seu padrão musical como moderno e universal, enquanto o forró (que mistura o xote, o xaxado e o baião) era tratado como coisa de “matuto”. Foi uma resposta à altura do artista nordestino para se defender da ocupação cultural que vinha de fora.
Décadas depois, um episódio constrangedor entre Roberto Carlos e o cantor (de forró e piseiro) João Gomes, atestou o desprezo do ex-líder da Jovem Guarda com a musicalidade nordestina. Durante a gravação do especial de fim de ano da Globo, em dezembro de 2025, João foi posto no palco como convidado para cantar junto com Roberto Carlos músicas de ambos os artistas, mas o “Rei” manteve seu repertório romântico e evitou qualquer referência às canções ou à estética do convidado.
O fato é que, não é de agora que artistas famosos de fora do Nordeste, mais especificamente do Sudeste, menosprezam e tentam minimizar a nossa musicalidade, ao mesmo tempo em que usurpam o protagonismo dos artistas da terra nos palcos dos grandes eventos da nossa região. Essa hierarquia se materializa sobretudo durante os festejos juninos. Festas genuinamente nordestinas que vêm sendo ocupadas pelo “agro-sertanejo”.
Em levantamento realizado pelo UOL Notícias (2026), prefeituras de cidades do interior do Nordeste (e de outras regiões do país) com folhas de pagamento no vermelho, chegam a pagar de R$ 500 mil a R$ 2 milhões por noite em cachês de cantores como: Gusttavo Lima, Ana Castela, Luan Santana, Henrique e Juliano, Bruno e Marrone, Zé Netto e Cristiano, Jorge e Mateus. O argumento é “arrastar multidões”, porém o resultado é contraditório. O palco do São João, que nasceu pra zabumba, triângulo e sanfona, virou vitrine de cantores famosos ligados a grandes empreendimentos do agronegócio do Sudeste, Sul e Centro-oeste do país.
Enquanto isso, os artistas locais que mantêm a tradição viva - o trio pé-de-serra, o repentista, a banda de pífanos, o forrozeiro de rabeca, aboiadores, entre outros - além lidarem com tratamento negligentes durante suas apresentações secundárias, disputam cachês miseráveis que giram em torno de R$ 2 mil a R$ 5 mil. São escalados para abrir shows às 17 horas, para “esquentar” o público que só chega depois das 23 horas para ver a atração nacional. Os agentes públicos que no discurso dizem valorizar a nossa “identidade”, na prática, trata-a como subproduto meramente figurativo. “Uma mercadoria barata”. Assim o forró vira cenário, e não mais a atração principal.
A hipocrisia fica clara na comparação. Raramente alguém vê os forrozeiros nordestinos sendo contratados para a festa de Barretos, no interior de São Paulo. Isso significa que, o Sudeste preserva sua matriz cultural nos próprios festejos, mas exporta a sua para cá como se fosse “nacional”. O Nordeste abre mão da sua própria singularidade em nome de uma suposta modernidade que só beneficia quem vem de fora.




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