Feminicídio não é acaso: é cultura, poder e silêncio social
- Gabriel Barros

- 10 de abr.
- 3 min de leitura

Os diversos casos não deixam dúvidas, o feminicídio segue matando mulheres todos os dias no Brasil. São mais de 1.400 por ano, quase quatro por dia. Mas essa tragédia não pode ser reduzida a números, pois o que está por trás desses crimes não é apenas a violência individual de um agressor, e sim uma lógica social que ainda insiste em tratar a mulher como propriedade.
A maioria dos casos acontece dentro de casa. Em mais de 80% das situações, o assassino é companheiro ou ex-companheiro. Ou seja, não é um estranho na rua, é alguém que convivia, controlava, vigiava. O feminicídio, no Brasil, tem endereço conhecido, o próprio lar, e ainda uma motivação recorrente: o inconformismo com a autonomia feminina.
É aqui que entra um ponto que muita gente prefere evitar: o papel dos discursos que reforçam a submissão da mulher. Não se trata de atacar religião ou tradição, mas de encarar um fato, quando ideias de hierarquia entre homem e mulher são naturalizadas, elas não ficam apenas no discurso, elas moldam comportamentos.
Quando se repete que a mulher deve “obedecer”, “preservar o casamento a qualquer custo” ou “saber seu lugar”, o que se constrói é um ambiente onde o controle masculino é visto como legítimo. E quando esse controle é de alguma forma questionado, quando a mulher decide sair, se impor, romper, a violência aparece como resposta extrema.
Não é coincidência que o feminicídio esteja tão ligado a relações íntimas. Também não é coincidência que ele cresça em contextos em que há resistência ao debate sobre igualdade de gênero. A criminologia já mostrou isso, o crime não surge do nada, ele é alimentado por valores, crenças e permissões sociais.
Dados internacionais reforçam esse cenário. Quase metade das mulheres assassinadas no mundo morre pelas mãos de parceiros ou familiares, entre homens, esse número não chega a 12%. Isso mostra que não estamos falando de violência genérica e sim de um padrão específico, direcionado.
No Brasil, o problema ganha contornos ainda mais graves quando se observa que a maioria das vítimas são mulheres negras, revelando que o feminicídio também dialoga com desigualdades raciais e sociais profundas.
E há outro ponto incômodo: muitos desses crimes poderiam ter sido evitados,visto que grande parte das vítimas já havia denunciado agressões anteriores. Isto é,o feminicídio muitas vezes é o último capítulo de uma violência anunciada e ignorada por falhas institucionais e, principalmente, por uma cultura que ainda relativiza a dor feminina.
Quando discursos políticos e religiosos se alinham para rejeitar pautas de igualdade, o efeito não é neutro. Pode não haver uma ordem direta para a violência (muitas vezes existe), mas há algo igualmente perigoso, que é sua normalização. A ideia de que o homem manda, de que a mulher deve aceitar, de que a ruptura é uma ameaça.
E onde há normalização, há terreno fértil para a violência.
Enfrentar o feminicídio não é apenas prender mais, é questionar o que se ensina, o que se repete, o que se tolera. É entender que não existe neutralidade quando se fala de desigualdade, pois ou se combate, ou se mantém.
Enquanto a sociedade continuar tratando a submissão feminina como valor moral, o feminicídio continuará sendo mais do que um crime, será um reflexo direto de uma cultura que ainda não conseguiu romper com o passado. E isso, mais do que um problema de segurança pública, é um problema de consciência coletiva.




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