Flávio Bolsonaro: o candidato do combate ao crime e o histórico que ele não conta


Segurança pública virou a principal vitrine de Flávio Bolsonaro nesta eleição. Na propaganda, ele é o homem que vai botar ordem no país e enfrentar o crime organizado. O problema é que a trajetória dele, desde os tempos de deputado estadual no Rio de Janeiro, conta outra história. E não é preciso recorrer a adversário pra contá-la: está nos registros da Assembleia Legislativa do Rio, nas decisões do Supremo e nas próprias palavras do senador.
Quando o Rio discutia a CPI das Milícias, entre 2007 e 2008, Flávio subiu à tribuna da Alerj pra defender que não se podia estigmatizar a milícia. Chamou aquilo de “novo tipo de policiamento” e deu como exemplo um colega que pagava vinte, trinta, quarenta reais pra não ter o carro furtado na porta de casa. Só que aquilo não é serviço de vigilância. Milícia é bandido que usa a ligação com a polícia pra garantir a própria impunidade. Quem mora em área dominada vive refém: paga pedágio pelo gás, pela internet e pelo transporte, e quem não coopera tem o CPF cancelado, como eles mesmos gostam de dizer. E quem enfrenta morre.
Foi o caso da juíza Patrícia Acioli. Em agosto de 2011, ela levou 21 tiros na porta de casa, em Niterói. Patrícia era conhecida por mandar prender policiais que formavam grupos de extermínio em São Gonçalo, e foram justamente esses criminosos que a mataram. O caso terminou com onze condenações. Na manhã seguinte ao crime, menos de dez horas depois, Flávio foi ao Twitter dizer que a forma como ela tratava os policiais nas audiências tinha contribuído pra ela ter muitos inimigos. A juíza assassinada virou a culpada por combater o crime.
Dez anos depois, também em Niterói, Ana Clara, de cinco anos, foi baleada enquanto brincava na porta de casa. O acusado é um policial militar. Em 2024, já senador da República, Flávio assumiu a defesa dele e assinou um recurso no Superior Tribunal de Justiça pra tentar derrubar o júri popular. Perdeu. Mesmo assim, o caso nunca foi a julgamento, e a sessão foi remarcada para maio de 2027. No debate deste segundo turno, perguntado sobre Ana Clara, Flávio não respondeu. A mãe da menina disse à Agência Pública que o silêncio dele foi desesperador.
Nos dois casos, a palavra do homem que promete segurança pesou contra a vítima. E quando se olha pra quem andou ao lado dele, o desenho fica ainda mais nítido.
Adriano da Nóbrega foi apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe do Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel, e da milícia de Rio das Pedras. Em 2003, Flávio deu a ele uma moção de louvor. Em 2005, entregou a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Alerj, dentro do batalhão prisional onde Adriano estava preso, acusado de homicídio. A mãe e a ex-mulher de Adriano tiveram cargo no gabinete de Flávio. Adriano morreu foragido em 2020, na Bahia, investigado no caso Marielle Franco. Flávio sustenta que, na época da homenagem, o oficial era visto como herói da PM e que ninguém poderia prever o que viria depois.
O capitão Ronald, parceiro de Adriano no Escritório do Crime, também ganhou moção de Flávio, em 2004, três meses depois de passar a ser investigado pela Chacina da Via Show, em que cinco jovens foram executados na Baixada Fluminense. Em março deste ano, o Supremo condenou Ronald a 56 anos de prisão por planejar o assassinato de Marielle. E não é coisa só do passado: em 2023, já senador, Flávio mandou 200 mil reais em emenda pra um projeto na Taquara, área de milícia na zona oeste do Rio. Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal, o pedido partiu de Robson Calixto, o Peixe, que chamava Flávio de “nosso senador”. Peixe foi condenado por integrar a organização criminosa que planejou o mesmo crime contra Marielle. A assessoria do senador afirma que as emendas seguem critérios técnicos.
Há ainda o crime que não usa fuzil. Foi no mesmo gabinete da Alerj que Fabrício Queiroz operava, segundo o Ministério Público do Rio, o esquema da rachadinha: parte do salário dos assessores voltava pra Flávio e era lavada numa loja de chocolate e em compra e venda de imóveis. A denúncia foi arquivada depois que o STJ anulou as provas por questão processual, e o Supremo negou a reabertura. O caso morreu na forma, sem que o mérito fosse julgado. E agora, já senador, Flávio negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, 24 milhões de dólares, cerca de 134 milhões de reais, pro filme sobre o pai. Ele afirma que se tratou de investimento privado.
Juntando as peças, o padrão aparece. O discurso de segurança de Flávio Bolsonaro escolhe o bandido. Quando o crime tem farda e trabalha pra milícia, vira “novo tipo de policiamento”. Quando tem mandato, vira aliado. Quando tem banco, vira investidor. O rigor fica reservado pra quem não tem padrinho. Isso não é política de segurança, é uma escolha sobre quem pode e quem não pode ser tratado como criminoso.
E é aí que o assunto chega aqui. Milícia não nasce do nada: cresce onde o Estado se ausenta e onde quem deveria combatê-la passa a tratá-la como solução. O Rio de Janeiro pagou e ainda paga caro por isso. Segurança pública de verdade começa por não condecorar quem mata e por não culpar quem morre enfrentando o crime. Em Sergipe, a gente não precisa dessa tecnologia miliciana.

Fontes: g1, Agência Pública, Brasil de Fato, Poder360, Valor Econômico e The Intercept Brasil.



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